São João Bosco: um precursor do ensino profissionalizante

30 Março 2021

São João Bosco (1815-1888) (Foto: Daily Compass)

Armando Alexandre dos Santos (*)

São João Bosco (1815-1888), mais conhecido, à moda italiana, como Dom Bosco, foi um verdadeiro amigo da juventude, à qual consagrou o melhor de sua existência. Dotado de carismas extraordinários, desenvolveu um sistema pedagógico inovador e conseguiu reunir em torno de si um prodigioso movimento de apostolado. Tinha frequentes sonhos de caráter sobrenatural, nos quais recebia luzes sobre o estado de alma de seus alunos e sobre acontecimentos do seu tempo e futuros. Embora sem recursos econômicos, com força de vontade e, sobretudo, com uma inabalável confiança em Maria Auxiliadora, conseguiu executar projetos apostólicos grandiosos em várias nações. Fundou duas congregações religiosas e grande número de colégios, para a educação de meninos pobres. Foi precursor do ensino profissionalizante, modelo que depois se generalizou em vários países.

No início do século XIX, o processo de industrialização da Europa atraía para os maiores centros urbanos muitas famílias provenientes do meio rural. Ali, desenraizadas e sem formação religiosa e cultural adequada, viviam em condições precárias. Os homens trabalhavam em fábricas, com turnos de trabalho pesadíssimos, e muitas vezes gastavam em bebidas, nas tabernas, boa parte do que ganhavam. As mulheres cuidavam como podiam das casas e dos filhos menores, enquanto os mais crescidos, sem escolas nem formação adequada, andavam pelas ruas, aprendendo o que não deviam. O resultado é que assim se constituía o caldo de cultura ideal para desajustes sociais e vícios de todos os tipos. A criminalidade era crescente e tendia a escapar ao controle das autoridades.

Esse o quadro geral das cidades maiores e mais industrializadas. Em Turim, capital do Reino do Piemonte, no Norte da Itália, era o que presenciava o jovem sacerdote João Bosco. As ruas viviam cheias de meninos de rua, abandonados e entregues ao léu. Para esses meninos, Dom Bosco passou a proporcionar boa formação religiosa, cultural e profissionalizante. Reunia-os em grandes concentrações, denominadas “oratórios”, e ali lhes ministrava aulas de formação, ao mesmo tempo que jogos e diversões. Daqueles candidatos a futuros marginais, conseguia extrair todo o potencial humano que possuíam. Deles fazia ótimos pais de família, trabalhadores honestos e eficientes e encaminhava os mais dotados para os estudos superiores e as profissões liberais. Entre eles, também recrutava seminaristas e futuros sacerdotes.

A obra começou modesta e foi, pouco a pouco, crescendo e assumindo vulto grandioso. Sofreu perseguições políticas, teve em seu encalço invejosos, mas a tudo venceu. Os últimos anos da vida foram cercados de respeito e consideração gerais, pois sua fama havia ultrapassado muito os limites do Piemonte. Embora visasse, acima de tudo, o trabalho apostólico de formação da juventude, acabou exercendo enorme influência na vida social e política da época e chegou a ser conselheiro de reis, de homens públicos e de papas.

Foi apóstolo da boa imprensa, tendo escrito mais de 140 livros e opúsculos, e chegando a constituir uma editora pujante e até a fundar uma fábrica de papel. Seus livros – em geral escritos com vistas à formação da juventude – atingiam tiragens espantosas, mesmo para os padrões de hoje. Pouca gente sabe que a fama e a influência de Dom Bosco atravessaram o Atlântico e chegaram ao Brasil, atraindo a atenção da Princesa D. Isabel de Bragança, regente do Império, na ausência de seu pai, o Imperador D. Pedro II.

Determinada a abolir a escravidão, a Princesa preocupava-se com o futuro dos escravos, depois de libertos. Temia que, abandonados pelos antigos senhores, vivessem sem eira nem beira, em condições precárias, formalmente livres, mas de fato presos a um sistema que lhes impedisse o acesso a condições melhores de existência.

A Princesa tinha uma visão muito lúcida desse problema. Compreendeu que somente a formação profissionalizante, novidade que Dom Bosco havia lançado no Norte da Itália, poderia ser adequada para assegurar, aos libertos do cativeiro, uma adequada inserção na sociedade brasileira. E escreveu a Dom Bosco, pedindo que mandasse missionários para o Brasil e oferecendo-se para ajudar. Houve uma troca de cartas entre o santo italiano e a princesa brasileira. E efetivamente, em 1883, chegaram ao Brasil os primeiros missionários salesianos, instalando-se em Niterói, em terreno conseguido pela herdeira do Trono. Tinha assim início a grandiosa obra educadora e missionária dos filhos espirituais de Dom Bosco no Brasil.

Dois anos depois, em 1885, fundaram eles o Liceu Sagrado Coração de Jesus, na capital paulista, e em 1892 deram início a uma nova fundação, em Campinas. Em Piracicaba, foi somente em 1950 que chegaram, por iniciativa do Bispo D. Ernesto de Paula.

Infelizmente, a proclamação da República impediu D. Isabel de realizar os grandiosos projetos que tinha concebido. A Lei Áurea não teve o desenvolvimento natural, que seria a integração dos ex-escravos na sociedade brasileira, na posição de dignidade a que faziam jus. A realização plena da obra redentora da Princesa foi abortada no fatídico dia 15 de novembro de 1889.

Transcrevo a seguir, como curiosidade, uma das cartas de São João Bosco à Princesa Isabel, datada de Turim, 25 de março de 1886:

«Alteza Imperial. A Divina Providência dispôs que se abrissem duas casas Salesianas no Império do Brasil: uma em Niterói, e outra em São Paulo, ambas consagradas a acolher meninos pobres e abandonados. Alguns dos nossos religiosos que aí trabalham e vieram por algumas semanas à Itália me falaram muito da bondade e da caridade de Vossa Alteza Imperial, e por isso me creio no dever de lhe apresentar os meus agradecimentos e recomendar a V. A., e a Sua Majestade o Imperador, todos os Salesianos, que não desejam outra coisa senão salvar almas para o Céu e diminuir na terra o número dos maus elementos. Eles rezam e recomendam a seus meninos que rezem pela saúde e bem-estar de V. A., de Sua Majestade e toda a Família Imperial. Maria Santíssima proteja a toda a dinastia, pela qual todos os nossos meninos rezam. Quanto a mim, tenho como dever invocar todos os dias na Santa Missa as bênçãos celestes sobre todos os súditos brasileiros. E tenho também a alta honra de me professar humildemente, obrigadíssimo servidor.» a) Pe. João Bosco” (Carta publicada em Biografía y escritos de San Juan Bosco, do Pe. Rodolfo Fierro S.D.B. Madri: BAC, 1955).


(*) ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é licenciado em História e em Filosofia, doutor na área de Filosofia e Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.

  • NR: Esta matéria foi escrita em genuíno e correcto português do Brasil, não devendo, portanto, confundir-se com uma aplicação das «regras» do chamado «Acordo Ortográfico», o qual é categoricamente rejeitado pela nossa Redacção.

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