Revisitar Mouzinho de Albuquerque

12 Dezembro 2020


«Essas poucas páginas brilhantes e consoladoras que há na História do Portugal contemporâneo escrevemo-las nós, os soldados, lá pelos sertões da África, com as pontas das baionetas e das lanças a escorrer em sangue. Alguma coisa sofremos, é certo; corremos perigos, passámos fomes e sedes e não poucos prostraram em terra para sempre as fadigas e as doenças. Tudo suportámos de boa mente porque servíamos El-Rei e a Pátria, e para outra coisa não anda neste mundo quem tem a honra de vestir uma farda. Por isso nós também merecemos o nome de soldados. É esse o nosso maior orgulho».

Mouzinho de Albuquerque (in Carta ao Príncipe Real D. Luís Filipe)

Joaquim Mouzinho, nascido na Batalha, a 12 de Novembro de 1855, distinguiu-se entre os Homens da sua geração e ganhou jus a figurar na plêiade de portugueses que no dizer do poeta “se vão da lei da morte libertando”.

Evocar Mouzinho, nos dias que correm, representa um pequeno acto de coragem que me permito – sem ofensa de lisonja aos leitores – reputar de adequado, tendo em conta estarmos a evocar Mouzinho que tinha essa qualidade, a coragem – tanto física como moral – no mais alto grau.

Lembro apenas esse memorável acto de coragem temerária – embora reflectida – só possível numa pessoa dotada de grande espírito militar e capacidade de liderança, que foi o golpe sobre Chaimite, feito de armas singular, glória exaltante dos nossos brios patrióticos e cujo valor encontrou eco nos principais países de então, confrontados com derrotas dolorosas de importantes exércitos da época.

Valor que fez reconhecer à generalidade da população portuguesa o direito que aqueles 50 bravos passaram a ter de ninguém se lhes dirigir sem se descobrir.

E tanto é de espantar o golpe de asa que fez Mouzinho entrar no “Kraal” do Gungunhana, protegido pela sua mais aguerrida “impie” de 3.000 guerreiros, derrubando com decisão a paliçada que o protegia, todos petrificando com assombro; como, já na retirada, sentindo os vátuas que os seguiam de perto, inquietos por não completamente dominados, mandou parar a coluna e num gesto intuitivo de alto risco, ordenou aos orgulhosos negros que depusessem os seus escudos no chão de modo a sobre eles poderem os soldados portugueses descansar. E assim se fez, ficando completa a humilhação vátua e por arrasto a sua submissão.

Mas hoje não se ensina mais o significado de Chaimite à população portuguesa e muito menos à sua juventude. Provavelmente, em muitos meios, este e outros actos heróicos são considerados démodés, uma acção de violência que nada justifica, uma aventura imperialista, um esforço escusado, uma afronta à paz entre os povos e outras considerações de semelhante jaez.

Hoje em dia os portugueses deixam-se dominar pelos pseudo-intelectuais de serviço que primam em manchar a memória de quem se portou bem e de exaltar iniquidades aviltantes… 

J. Brandão Ferreira
(De um trabalho de minha autoria, comemorando o 150º aniversário de Mouzinho de Albuquerque)

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