«Os campos de trabalhos forçados foram um verdadeiro inferno», narra o Embaixador Armando Valladares na sua entrevista exclusiva ao Portal Dies Irae (2/3)

26 Agosto 2021

Nesta segunda parte da entrevista, o Embaixador Armando Valladares descreve em detalhe alguns dos intermináveis sofrimentos que padeceu ao longo de 22 anos nas prisões do regime comunista cubano e como a sua Fé católica o ajudou a resistir.

Gentilmente cedida pela Administração do Portal Dies Irae, segue abaixo a segunda parte da entrevista exclusiva do Embaixador Armando Valladares.

  1. Senhor Embaixador, gostaria de lhe perguntar como viveu, se quiser comentar, 20 anos numa prisão comunista. Pode descrever para o público português como foram esses 20 anos dentro de uma prisão do regime castrista?

Foram 22 anos. Foram muitíssimos. E é muito difícil numa entrevista relatar o que aconteceu nesses 22 anos. Mas, de uma maneira geral, devo dizer que o tratamento dentro das prisões políticas em Cuba foi muito degradante. Degradante, humilhante, com a negação de todos e cada um dos direitos humanos. A Declaração dos Direitos Humanos, como demonstrámos anos depois em Genebra e como disse o então Embaixador Henry Steel, representando a Inglaterra: «Em Cuba, todos e cada um dos direitos humanos são violados diariamente».

A vida na prisão era uma vida debaixo de uma constante repressão. Torturas, isolamentos, trabalhos forçados, negação de visitas familiares. Em 22 anos, tive apenas 12 visitas, porque a maior parte da minha condenação foi passada rebeldemente, incomunicável em celas de castigo durante anos.

Os campos de trabalhos forçados foram um verdadeiro inferno. Centenas de companheiros foram assassinados nos campos de trabalho. Outras centenas foram mutilados por disparos, por facadas, espancamentos, tendo esse tremendo terror levado muitos deles a se agredirem a si próprios para não terem que ir aos campos de extermínio, de onde não sabíamos se voltaríamos vivos. Lembro-me que, na ronda de uma madrugada, os nossos médicos (os médicos presos políticos), faziam uma lista dos doentes, vindo depois o médico comunista, às cinco ou às seis horas da manhã, para verificar os presos doentes que tínhamos colocado nessa lista e que não estavam em condições de trabalhar. Alguns tinham 39 ou 40 graus de febre, ataques de asma, diarreias, etc., mas o comunista ignorava isso. Certa vez, a um rapaz que estava muito doente, com febre muito alta, o médico comunista, chamado Agramonte, disse-lhe, com escárnio, que a única maneira de se livrar de ir para o campo de trabalho seria cortar um dedo. Dez minutos depois, o paciente voltou com um cartucho de papel ensanguentado, abriu-o e atirou o dedo para cima da mesa. O médico comunista fugiu, dizendo que éramos loucos.

E aquele terror de ir para os campos de trabalhos forçados levou muitos dos nossos companheiros a agredirem-se fisicamente para escapar àqueles pesadelos horríveis, porque saíam de manhã e não sabiam como voltariam. A primeira coisa que fazíamos quando as equipas de trabalho voltavam era comunicar-nos entre os quatro edifícios para avisar, dando o nome do companheiro que havia sido mutilado ou assassinado. Digo-lhe, em relação a alguns daqueles golpes com facão, que eles chapavam-nos o facão nas costas de tal forma que a pele ficava agarrada à lâmina, como se estivessem a bater com um ferro em brasa, porque nos obrigavam a trabalhar sem camisa, para que os mosquitos nos picassem ainda mais e para que nos comessem vivos.

Numa ocasião, estávamos a colher ervas daninhas com uma picareta. Os guardas tinham espancado muitos de nós. O prisioneiro que trabalhava ao meu lado estava visivelmente alterado e disse-me: «Não aguento mais, vou cravar a picareta no meu pé». E eu disse-lhe: »Não faças isso, por favor. Reza, resiste, Deus vai-te ajudar a sair disto». Eu só podia falar com ele em voz baixa, entredentes, porque se os guardas vissem que estávamos a conversar, batiam-nos. E olhe como seria… Ele levantou a picareta muito alto, como que para bater com mais força, e entrou-lhe por cima da bota e a ponta afiada saiu pela sola, que imediatamente ficou vermelha de sangue. E, com isso, ele passou vários meses sem ir para os campos de trabalho.

Em Outubro de 1961, três dos meus companheiros e eu conseguimos fugir da prisão de Isla de Pinos, no Sul de Cuba e conhecida como Ilha do Tesouro. Foi a primeira vez na história desde 1935, ano em que foi inaugurada, que daquela prisão conseguiam fugir alguns reclusos.

Aqueles que se haviam comprometido a ir-nos buscar num barco a um ponto combinado junto da costa, não compareceram porque soubemos depois que eles achavam que era impossível fugir daquela prisão. Por razões de segurança, nunca contámos aos que nos iam buscar como iríamos fugir. Saímos disfarçados de militares por dentro do quartel da guarnição militar, saindo pelo fundo e passando por baixo de uma trincheira onde havia um guarda armado de metralhadora. Ao segundo dia de espera no litoral, prenderam-nos e levaram-nos para as celas de isolamento da prisão.

E ao guarda armado de metralhadora, como castigo, enviaram-no para nos vigiar nas celas. O tecto das celas era uma grande malha de aço. Os guardas caminhavam por cima dela e viam-nos por baixo. Batiam-nos com uma vara de madeira para nos impedir de dormir, eram as famosas «varas de Ho Chi Minh». O guarda que nos odiava, por vingança, ia onde estavam os presos comuns e pedia-lhes que enchessem um balde com urina e excrementos. Mexia-os, subia até ao tecto da cela e despejava os excrementos por cima de nós. Eu sei o sabor que têm os excrementos de outros homens porque tive que os tirar do meu rosto, da minha boca… e não tinha água para me limpar.

Nas celas fechadas com tijolos da prisão de Boniato, na província de Oriente, estivemos anos sem ver qualquer luz artificial ou luz solar. Alguns de nós tomámos precauções. Por exemplo, a minha cela ficava voltada para Este e eu, muito cedo, punha um olho e, depois, o outro em cada um dos pequenos orifícios que havia para olhar para fora.

Houve um prisioneiro nosso que não olhou pelos orifícios. Naquela escuridão e com o decorrer dos anos, as pupilas perdem o reflexo de contrair-se. A nós, que olhávamos pelos buraquinhos, as pupilas contraíam-se. Mas ele, não, usava óculos, óculos escuros, como se põe às pessoas quando lhes dilatam as pupilas ao fazer um exame ocular. As suas pupilas perderam a capacidade de contrair-se.

Os nossos companheiros presos que eram médicos davam-nos conselhos para nos acalmarmos. Quando se está numa cela, é claro que aparece uma série de dores e sintomas que nunca se sentiu na vida. Por exemplo, surgem dores no peito e fica-se assustado e preocupado. E o médico dizia-nos: “Quando sentirem dores no peito, respirem profundamente. E se a dor piorar, não se preocupem, não tem nada que ver com o coração. Porque o sistema respiratório não tem nada que ver com o sistema circulatório. Se o respirar fundo aumenta a dor, é porque têm um gás, algo assim, mas não tem nada que ver com o coração.

Houve uma altura em que os comunistas queriam vestir os presos políticos com o mesmo tipo de uniforme que usavam os criminosos comuns e os reabilitados. Assim diriam que já não havia presos políticos. E, no meio de toda aquela violência, iam e vinham, cela por cela, duas vezes por dia, e perguntavam: «Vais vestir a roupa azul?». »Não!», respondíamos. E começavam a bater-nos com tábuas, com as baionetas, com cabos e com correntes embainhadas em pedaços de mangueiras. Quando terminavam, vinha um militar do Ministério do Interior com um enfermeiro e um carrinho de primeiros socorros que continha água oxigenada, curativos, mercurocromo, etc. E se, por exemplo, o prisioneiro tinha a cabeça a sangrar, o enfermeiro cosia-lhe a ferida, aplicava um pouco de mercurocromo e umas gazes com esparadrapo.

No dia seguinte, esse oficial do Ministério do Interior punha-se no corredor e gritava: «Para que vejam que não somos tão maus como dizem, ordenei à guarnição que, se algum de vós for atingido, ferido na cabeça e vos colocarem uma ligadura, que à tarde vos batam de novo por cima dessa ligadura para que não digam que vos magoamos duas vezes num dia. E eu faço isso porque sou uma pessoa muito boa».

Toda aquela tortura, todo aquele isolamento, a greve de fome… A maior que fizemos foram 36 dias, mas a maior de todas foi imposta por eles, 46 dias, para nos tentar obrigar a usar a roupa de reabilitados. Quando os dois primeiros morreram de pura desnutrição, desistiram porque sabiam que continuaríamos a morrer sem desistir.

Essa era a chave de tudo, ou seja, se aceitávamos o plano de reabilitação, eles imediatamente tiravam-nos, davam-nos banho, davam-nos uma roupa limpa, mandavam ir buscar a família e diziam que podíamos ir com eles. E deixavam que o prisioneiro fosse um fim-de-semana com a sua família. A resistência era completamente rompida.

Mas, para mim, aceitar isso seria um suicídio espiritual. Eu nunca teria assinado aquele papel que dizia que toda a minha vida anterior tinha sido um erro, que os valores em que acreditava eram valores falsos. Que Deus não existia, que essa era uma crença obscurantista do passado. E isso, para mim, teria sido totalmente o fim, como ser humano.

Muitos dos meus companheiros pensaram que poderiam assimilar essa situação e assinaram esse papel. Quando saíram, muitos deles fracassaram completamente nas suas vidas, com as suas famílias. Porque se rompeu algo dentro de nós que acreditamos em Deus e temos essa regra inflexível, e os comunistas sabem disso.

Quando eu já tinha passado 15 anos na prisão, veio um oficial e levaram-me para um quarto da prisão de La Cabaña. Naquele momento, o oficial disse-me: «Olha, estamos aqui tu e eu. Não precisas de assinar nenhum papel. Mas se me disseres oralmente, apenas oralmente, que estás errado e que nós temos razão, em 48 horas devolvemos-te a liberdade». Disse-me: «Arrisca! Não te estou a dizer daqui a um mês ou a duas semanas, estou-te a dizer depois de amanhã. A única coisa que tens de me dizer é que tu estás errado e nós temos a razão. Não precisas de assinar nada. Olha, não estamos a filmar nem nada, apenas tu e eu». Respondi-lhe: «Coronel, é verdade que aqui estamos eu e o senhor, mas se eu o admitisse, nunca mais poderia olhar a minha mulher e os meus filhos nos olhos. Sabe porquê? Porque quem está errado é o senhor». Levantou-se e disse-me: «Tu estás é louco». E foi-se embora.

Lembrem-se que os primeiros cristãos também tinham mulher e filhos e deixaram-se devorar por feras ao invés de negar a Deus, e que esse sacrifício para muitos teria parecido inútil e impraticável, mas, graças a eles, existem os valores cristãos. Sofreram, ganharam e, graças a eles, sobre os valores que defenderam, construiu-se a maior civilização que a humanidade já conheceu: a Civilização Cristã! Os comunistas conheciam perfeitamente aquela regra que tínhamos e sabiam que, se alguém a rompesse, já estava tudo feito.

Havia um escritório na prisão de La Cabaña e um de nós conseguiu arrombar a fechadura. Nesse escritório tinham a revista Moncada, que era o órgão oficial do Ministério do Interior. E havia um artigo, que falava sobre os prisioneiros que nos revelávamos, dizendo que éramos recalcitrantes, persistentes, que foram usados todos os métodos possíveis de repressão e, ainda assim, permanecíamos nas nossas posições, etc. E veja como acabava: dizia que a Revolução precisava de homens como estes aqui. Ou seja, eles próprios davam-se conta da importância de resistir na luta e isso foi um orgulho tremendo para nós.

Eu estava numa das celas de isolamento quando foi lançado, no exterior, o meu primeiro livro, chamado «Da minha cadeira de rodas», que era um livro de poesia, porque eu escrevi no papel de cigarro. O papel de cigarro colocava-se na água para descolar, escrevia-se e, por fim, enrolava-se. Contrabandeei 20 exemplares desse livro, mas apenas um chegou à minha esposa, mas foi o suficiente.

Depois, saiu o segundo, chamado «O coração com que vivo», que era de poesia e tinha um conto curto. Neste livro denunciava mais as torturas, o massacre de Boniato. Como tínhamos um religioso, Gerardo González, a quem chamávamos de Irmão da Fé, que, quando os comunistas nos batiam, levantava sempre os braços ao Céu e dizia: «Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem». Vinha todos os dias buscar-nos para a oração, levantava-nos fisicamente e dizia: «Irmão, vem, vamos rezar». Um dia, os militares vieram espancar um prisioneiro e esse Irmão da Fé colocou-se entre o guarda e o prisioneiro que estava doente. Levantou os braços para o Céu e, com a cabeça erguida, começou a dizer: «Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem», mas quase não terminou a frase porque o Tenente Raúl Pérez de la Rosa disparou sobre ele a espingarda automática, esvaziando completamente o carregador ao ponto de quase lhe cortar o pescoço com as rajadas das balas…

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