O fim de Hitler

31 Janeiro 2021

Armando Alexandre dos Santos (*)

Assisti duas vezes ao filme «A Queda – As últimas horas de Hitler», a primeira vez quando foi colocado nas locadoras e, depois, para fazer uma análise mais acurada dele. Foi dirigido por Oliver Hirschbiegel, figurando como Hitler o ator suíço Bruno Ganz e lançado ao público em 2004. Recebeu várias indicações para o Oscar. É um filme sinistro, pavoroso, que faz mal ao expectador, mas precisa ser visto e analisado.

Trata-se de uma recomposição das últimas horas do bunker berlinense de Hitler, a partir do livro de recordações da sua secretária, a bávara Traudl Junge, que no filme foi representada por Alexandra Maria Lara.

A guerra já estava de há muito perdida pela Alemanha (no meu modo de entender, desde 1941, quando do fracasso da missão Rudolf Hess na Escócia). Os russos já estavam dentro da cidade, disputando terreno com os últimos focos de resistência dos alemães. O ambiente psicológico daquela fase é muito bem apresentado no filme.

A loucura paranoica e o total alheamento da realidade, por parte de Hitler; os contrastes e paradoxos de seu “criminal mind”, ao mesmo tempo capaz de manifestações de frieza e crueldade e de momentos episódicos de ternura quase lírica; o desconcerto dos oficiais de seu Estado-Maior, que viam as loucuras do Führer, mas achavam-se presos pelo juramento de fidelidade incondicional a ele; o contraste entre o ambiente de aparente normalidade, das refeições e festinhas ocorridas no bunker, com as cenas de fim-de-guerra externas; o poder hipnótico e fanatizante que Hitler exercia sobre as pessoas, levando-as a atitudes desatinadas; o fanatismo de muitas pessoas que, contra toda a evidência, ainda criam em Hitler e preferiam morrer com ele a deixá-lo; o oportunismo, a politicagem e as rivalidades que envolviam pessoas da entourage do líder todo-poderoso ˗ tudo isso fica muito claro no filme.

É um filme com enredo pobre; trata-se mais bem de um documentário. Mas é um filme a que assistimos com interesse crescente, sem nos desviarmos um minuto do fio.

A cena mais impressionante e perturbadora é, sem dúvida, a da Sra. Magda Goebbels (representada pela atriz Corinna Harfouch) matando um a um seus seis filhos, com cápsulas de cianureto, antes de se suicidar juntamente com o marido, porque, como afirmou, «em um mundo sem Hitler não valia a pena viver». É algo, realmente, assustador.

O ator suíço Bruno Ganz, que fez o papel de Hitler, é magistral no seu desempenho. Mereceria, sem dúvida, um Oscar de melhor ator, mas não o ganhou e jamais o ganhará, porque faleceu no início do ano de 2019. O filme foi muito criticado porque, segundo alguns, mostraria um lado humano e carinhoso de Hitler, o que seria propagandístico para sua odiada figura. Sinceramente, não julgo procedente essa crítica. A meu ver, as episódicas cenas de «ternura quase lírica», como escrevi acima, só realçam, por força do contraste, a monstruosidade satânica da personagem. Acredito que tenha sido por causa dessas críticas que o filme não levou o Oscar, a meu ver injustamente.

Repito: é filme perturbador e sinistro, mas precisa ser visto.

(*) ARMANDO ALEXANDRE DOS SANTOS é licenciado em História, doutorado em Filosofia e Letras, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História.

  • NR: Esta matéria foi escrita em genuíno e correcto português do Brasil, não devendo, portanto, confundir-se com uma aplicação das «regras» do chamado «Acordo Ortográfico», o qual é categoricamente rejeitado pela nossa Redacção.

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