Estados Unidos ensaiam lançamento de bombas nucleares na Europa

27 Outubro 2022

Bombardeiro B-52 da Força Aérea dos Estados Unidos (Foto: SOFREP)

Na passada segunda-feira [17 de Outubro], a OTAN realizou um exercício conhecido como Steadfast Noon, no qual bombardeiros B-52 e caças F-16 dos EUA simularam o lançamento de bombas atómicas sobre a Europa no contexto de um crescente impasse nuclear com a Rússia.

O exercício ocorreu apenas dez dias depois de o Presidente dos EUA, Joe Biden, ter alertado para um «apocalipse», dizendo que o risco de guerra nuclear é o maior desde a Crise dos Mísseis Cubanos de 1962.

«Este é o exercício praticado pela missão de ataque nuclear da OTAN com aviões de dupla capacidade e com bombas nucleares tácticas B61 que os EUA têm na Europa», escreveu Hans Kristensen da Federação de Cientistas Americanos.

Os aviões ensaiaram o lançamento das bombas termonucleares «tácticas» B61, cada uma com potência 20 vezes maior do que aquela que foi lançada sobre Hiroshima, na Segunda Guerra Mundial, matando cerca de 126.000 civis.

Embora esses exercícios sejam geralmente apresentados como treino nuclear de rotina, sem envolver ameaça e sem visar especificamente um país, este ano o Secretário-Geral da OTAN, Jens Stoltenberg, deixou claro que o exercício constituiu um aviso para a Rússia.

Jens Stoltenberg, Secretário-Geral da OTAN

Num discurso em que mencionou cinco vezes a Rússia, Stoltenberg anunciou: «Na próxima semana, a OTAN vai realizar o seu exercício de dissuasão há muito planeado: Steadfast Noon». E acrescentou: «A Rússia sabe que uma guerra nuclear não pode ser ganha e nunca deve ser empreendida».

Desde de 2019 que os Estados Unidos têm 150 ogivas nucleares «tácticas» estacionadas em toda a Europa como parte do arsenal nuclear da OTAN, incluindo a Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda e Turquia.

No domingo [16 de Outubro], um dia antes do exercício nuclear programado, a China disse aos seus cidadãos que viviam na Ucrânia para evacuar o país, invocando uma «grave situação de segurança».

Em Junho, a OTAN publicou um documento em que se comprometia a «fornecer toda a gama de forças» necessárias «para o combate de alta intensidade e multi-domínio contra os concorrentes de armas nucleares».

Ao anunciar o exercício Steadfast Noon, a OTAN afirmou que os voos de treino incluiriam «14 países e um máximo de 60 aviões de vários tipos, com caças de quarta e quinta geração, bem como aviões de vigilância e aviões-cisterna». Acrescentou que os «bombardeiros de longo alcance B-52 dos EUA descolarão da Base Aérea de Minot no Dakota do Norte» para participar no exercício.

Os voos foram realizados «sobre a Bélgica, onde decorreu o exercício, bem como sobre o Mar do Norte e o Reino Unido».

Caça F-16 da Força Aérea dos Estados Unidos (Foto: Military.com)

A OTAN acrescentou: «Não são utilizadas armas reais», o que é um alívio porque as armas envolvidas no exercício causariam emissão de radiações por centenas de milhas quadradas, espalhando precipitação de poeiras radioactivas em vários países.

A 7 de Outubro, o Presidente Joe Biden disse que o mundo está em risco de «Armageddon» nuclear, o que significa rápida escalada da guerra na Ucrânia com possível guerra nuclear entre Estados Unidos e Rússia.

«Desde o tempo de Kennedy e da Crise dos Mísseis Cubanos que não considerávamos a perspectiva do Armageddon», disse Biden. O Presidente americano acrescentou que não se pode pensar «em algo como a facilidade de recorrer ao uso de uma arma nuclear táctica sem acabar em Armageddon». Em Fevereiro, Biden lembrou que o envio de armamento ofensivo para a Ucrânia iria desencadear a «Terceira Guerra Mundial». Desde essa altura, os EUA têm enviado para a Ucrânia centenas de veículos blindados, sistemas avançados de mísseis de longo alcance e outras armas de tecnologia avançada.

OTAN e EUA querem guerra nuclear?

Bomba nuclear B61 (Foto: The Eurasian Times)

Em artigo publicado na semana passada no «Politico», o antigo director da CIA, Leon Panetta, escreveu que as agências de inteligência dos EUA acreditam que as probabilidades de a guerra na Ucrânia entrar em espiral de ameaça nuclear estão na proporção de um para  quatro.

«Alguns analistas da inteligência acreditam agora que a probabilidade do uso de armas nucleares tácticas na Ucrânia aumentou de 1 a 5 por cento no início da guerra para 20 a 25 por cento no presente», escreveu Panetta.

Na sexta-feira, o jornal Guardian informou que os governos estão a fazer planos para evitar o pânico caso a guerra na Ucrânia se transforme em conflito nuclear. «O Ocidente faz planos para evitar o pânico caso a Rússia venha a utilizar bombas nucleares na Ucrânia», foi o título do relatório em que citou uma fonte anónima segundo a qual os governos estão a empreender «um planeamento prudente para uma série de cenários possíveis».

Prevê-se que o exercício nuclear da OTAN ocorra praticamente ao mesmo tempo que a Rússia realiza o seu exercício nuclear «Grom». Embora a OTAN tenha anunciado abertamente a realização dos seus exercícios de bombardeamento nuclear, a Rússia nada disse sobre o assunto.

Isso não impediu, contudo, que autoridades da OTAN denunciassem verbalmente o exercício russo como escalada provocadora, apesar de ainda não anunciado.

Um alto funcionário anónimo dos EUA disse à Reuters que «Brandir armas nucleares para coagir os Estados Unidos e os seus aliados é uma irresponsabilidade». E acrescentou: «Consideramos que o desembainhar do sabre nuclear é imprudente e irresponsável. A Rússia pode escolher esse jogo mas nós não o faremos». Isto foi dito por esse funcionário norte-americano apenas alguns dias antes de Washington planear o voo de bombardeiros na Europa para treinar o lançamento de bombas nucleares.

Josep Borrell, responsável pelos Negócios Estrangeiros da UE, ameaçou na semana passada que as forças russas seriam aniquiladas se utilizassem armas nucleares na Ucrânia, exprimindo-se nos seguintes termos: «Qualquer ataque nuclear contra a Ucrânia criará uma resposta, não uma resposta nuclear, mas uma resposta militar tão poderosa que o exército russo será aniquilado».

A 7 de Outubro, no mesmo dia do comentário de Biden sobre o Armageddon nuclear, o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, em reunião de um grupo de reflexão australiano, apelou para que a OTAN realizasse ataques preventivos contra a Rússia a fim de inviabilizar a «possibilidade de a Rússia utilizar armas nucleares». «O que deve fazer a OTAN? Eliminar a possibilidade de a Rússia utilizar armas nucleares», disse Zelensky. «Precisamos de ataques preventivos, para que saibam o que lhes irá acontecer se utilizarem armas nucleares, e não o contrário».

Nesta atmosfera de alta tensão, o exercício nuclear liderado pelos EUA levanta a perspectiva de um grande erro de cálculo. É facto bem conhecido que o exercício anual Able Archer da OTAN, durante a Guerra Fria, quase levou a uma total guerra nuclear em 1983, convencendo os líderes da União Soviética de que os Estados Unidos iriam realmente lançar um ataque nuclear.

O Washington Post observou que as tripulações de bombardeiros soviéticos «receberam ordens para carregar bombas nucleares numa esquadra de aeronaves em cada unidade, sendo os aviões colocados em “prontidão 3”, que significava alerta de 30 minutos».

Em Fevereiro de 2021, o Gabinete de História do Departamento de Estado norte-americano desclassificou uma carta do Tenente-General Leonard H. Perroots, na qual ele deixava claro que as forças soviéticas tinham respondido aos avanços dos EUA carregando ogivas nucleares nos seus bombardeiros e que isso poderia ter desencadeado uma guerra nuclear, se os Estados Unidos tivessem respondido na mesma moeda.

Após ter sido divulgado publicamente, o memorando Perroots foi censurado pelo Departamento de Estado e reclassificado como secreto por decisão judicial.

André Damon

Fonte: Tradition in Action. A tradução é da responsabilidade da nossa Redacção.

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