A Batalha de Viena e o Rei João Sobieski da Polónia

12 Setembro 2022

Batalha de Viena (12 de Setembro de 1683): Os célebres hussardos alados da Polónia carregando sobre o inimigo turco. (Foto: Joy Spicer)

Jan Sobieski – Rei João III da Polónia, conhecido como o «invencível Leão do Norte» – foi um dos maiores capitães do século XVII, devendo-se a ele a salvação da Europa ao derrotar os turcos na célebre Batalha de Viena.

Pungente apelo do Papa Inocêncio XI

Percebendo toda a transcendência do perigo turco, o Papa de então, o bem-aventurado Inocêncio XI, fez todo o possível para obter auxílio à ameaçada Áustria: «Conjuro-te pela misericórdia de Deus — escrevia ele a Luís XIV, Rei da França — que acudas em auxílio da oprimida Cristandade para que não caia sob o jugo do horrível tirano».(4) O monarca respondeu evasiva e friamente com vãs desculpas e acusações à corte de Viena.

O Soberano Pontífice apelou então à Polónia. João Sobieski não ignorou o pungente apelo, pois bem sabia que a queda de Viena transformaria a Polónia em presa fácil para o Islão.

Em 31 de Março de 1683, por mediação do Papa, ajustou-se uma aliança defensiva e ofensiva com o Imperador da Áustria e contra os turcos, jurada pelos dois soberanos [o Imperador e João Sobieski] e garantida pelo Papa assim como pelos plenipotenciários e cardeais que os representavam (Juan Baptista Weiss, História Universal, Tipografia La Educación, Barcelona, 1930, vol. XI, p. 884). O Imperador comprometia-se a mandar 60 mil homens para a campanha e o rei da Polónia, 40 mil.

O astuto rei polaco, baseado nas informações dos seus espias e contrariando a opinião geral, já suspeitava que os turcos iriam directamente sobre Viena. Por isso, pôs-se a caminho da capital austríaca, levando consigo o seu filho Jacob Luís, de apenas 16 anos de idade. Passando por Czestochowa, as tropas polacas rezaram pedindo à Mãe de Deus a bênção para as suas armas.

Entretanto, o Vizir Kara Mustafá já tinha chegado perto de Viena e organizado o cerco da cidade que era defendida pelo valente Conde de Stahrenberg, à frente de 15 mil homens. O Imperador teve que deixar a cidade. Os turcos devastavam tudo nos arredores por meio de incêndios, assassinatos e todo o tipo de violências. Fizeram muitos prisioneiros nas aldeias em redor de Viena. Parte deles foi levada para a escravidão e outra parte foi dizimada sem misericórdia. Vendo a situação de muitos dos infelizes que conseguiram escapar, mais de 60 mil habitantes de Viena fugiram para onde puderam.

Vencer com glória ou morrer como cavalheiro

Para exortar os seus homens e os cidadãos de Viena à resistência, o Conde de Stahrenberg fez-lhes uma prelecção que terminou com as palavras: «Preferimos uma morte gloriosa no campo de honra do que a rendição ao inimigo […] Segui-me como vosso líder, cordial e alentadamente, já que espero vencer com glória ou morrer como cavalheiro» (Juan Baptista Weiss, História Universal, Tipografia La Educación, Barcelona, 1930, vol. XI, p. 889).

Os olhos da Europa estavam voltados para Viena e em todas as igrejas, por ordem do Papa, foi exposto o Santíssimo Sacramento para adoração.

Quando Sobieski chegou com o seu exército libertador nas proximidades de Viena, a 11 de Setembro, a cidade exangue já estava nos seus últimos haustos. No dia seguinte os austríacos cruzaram o Danúbio sob o comando do Príncipe Karl Leopold von Lothringen (Lorena) e juntaram-se às forças alemãs, comandadas pelo Príncipe Eleitor Johann Georg III da Saxónia. O total das forças cristãs chegava a 84 mil homens, sendo 38 mil de infantaria e 46 mil de cavalaria.

Ao saberem da chegada de Sobieski, os turcos ficaram atemorizados pois já estavam desgastados com a duração do cerco que já se arrastava há mais de 40 dias. Além disso, havia pesadas baixas nas suas fileiras, causadas pelas armas dos defensores de Viena e também pela peste. Mas tinham ainda 170 mil guerreiros, sem contar com as divisões que estavam na Hungria.

Promessa: Vitória se houver confiança em Deus

Na manhã do dia 12 de Setembro de 1683, travou-se então a famosa Batalha de Viena. Na madrugada desse dia, antes da batalha, o Rei Jan Sobieski e todo seu estado-maior assistiram à Missa celebrada pelo capuchinho Frei Marco d’Aviano, enviado pelo Papa Inocêncio XI que conhecia a sua fama de santidade e de visão profética. O próprio rei Sobieski ajudou à Missa como acólito. No fim, Frei d’Aviano abençoou o exército dos aliados europeus e disse aos combatentes: «Em nome do Santo Padre vos digo que a vitória é vossa, se tiverdes confiança em Deus». Nesse momento Jan Sobieski armou cavaleiro seu filho Jacob.

Quando finalmente os dois exércitos estavam frente a frente, Sobieski deu sinal para o combate bradando: «Deus é o nosso auxílio!»

A resistência dos turcos foi desesperada. Por duas vezes foram repelidos e por duas vezes se refizeram e contra-atacaram. Em determinado momento da sangrenta batalha, os hussardos alados da Polónia carregaram com o seu conhecido ímpeto sobre o inimigo, mas a formação turca era muito compacta e não permitiu a penetração. Os hussardos recuaram então para preparar nova investida. Mas o inimigo turco, tomando isto como fuga, correu atrás deles, afrouxando assim as suas defesas. Os hussardos então voltaram a eles, agora com um reforço, abrindo grandes clareiras na formação inimiga e bradando o nome de Jan Sobieski. Os turcos debandaram enquanto o rei polaco e os seus cavaleiros se lançavam em sua perseguição. Ambos os lados lutaram com bravura, mas o comando de Sobieski foi decisivo para a vitória dos aliados. Percorrendo todas as frentes de batalha, comandando, combatendo e animando os seus homens, foi ele o primeiro a entrar no campo do inimigo, já desmoralizado pela fuga de Kara Mustafá.

Os turcos foram vencidos, fugiram, e a Cristandade foi salva graças à participação decisiva de um monarca católico: Jan Sobieski, «o invencível Leão do Norte».

Luís de Magalhães Taveiro

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