10 de Junho: Dia de Portugal, de aquém e de além-mar…

9 Junho 2021

Políptico de Nuno Gonçalves (Museu Nacional de Arte Antiga): El-Rei D. Afonso V aos pés de São Vicente. O quadro traduz bem o espírito de fé dos portugueses de antanho. A expressão das personagens – grave, varonil, com um ligeiro fundo de serena e superior melancolia – deixa entrever a alma piedosa e heróica do nosso povo, nos tempos em que se guiava pela Fé e pelo idealismo da Epopeia Ultramarina.

Neste dia de Portugal, de Camões e da alma Lusíada, espalhada pelos quatro cantos do mundo, pareceu-nos muito oportuno reproduzir aqui um artigo do Professor Plinio Corrêa de Oliveira, publicado em 1957 no jornal Catolicismo (São Paulo, Brasil), na sequência da visita do Presidente Craveiro Lopes à Terra de Vera Cruz.

PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA

Passado esplêndido, futuro ainda mais belo

Introdução

Há muito que desejamos tratar em Catolicismo um tema para o qual esperávamos ocasião. Este tema é Portugal. A visita do Presidente Café Filho à nossa antiga metrópole teria dado oportunidade a tal. Mas pareceu-nos mais interessante aguardar que o Chefe de Estado luso viesse por sua vez ao Brasil, para que nosso artigo tivesse como fundo de quadro, não só a manifestação dos sentimentos de Portugal para conosco, como também os do Brasil para com Portugal. Com efeito, desejaríamos abordar o assunto Portugal sob um ângulo que não fosse nem exclusivamente histórico, nem meramente afetivo ou cultural. Nosso tema seria outro. De que alcance prático são para o presente e o futuro os vínculos e laços que unem as duas pátrias? Ora, para responder a esta pergunta, seria preciso que os sentimentos de ambos os povos se manifestassem, a fim de se ver em que medida seria viva neles a consciência de suas afinidades

Apagaram-se os últimos fogos das festas com que o Brasil acolheu o General Craveiro Lopes. Temos prazer em registrar que o Itamarati, fiel às suas melhores tradições, conduziu com distinção e dignidade todo o curso da visita presidencial. E que a acolhida dos brasileiros correspondeu às melhores expectativas. Está patente que de um e outro lado do oceano a comunidade de língua luso-brasileira tem consciência de todos os liames que a conservam coesa, e os preza no mais alto grau. Mas… e daí? É a esta pergunta que, à maneira de epílogo de tantas festas, gostaríamos de responder.


A unidade da Europa era acima de tudo religiosa e mística, decorrendo do convívio de todas as nações no grémio da Igreja Católica. Mas era também uma unidade cultural e psicológica, uma unidade humana – no sentido de uma humanidade baptizada – que fazia com que a Europa não fosse inteiramente o que era se lhe faltassem os elementos peculiares de cada um dos seus povos. Era o contrário da União Europeia, socialista, ateia e igualitária.

A Igreja Católica constitui um imenso firmamento espiritual, todo um riquíssimo e diferenciadíssimo universo de almas, em que as variedades mais profundas se combinam harmoniosamente para compor uma unidade possante e majestosa.

Quem quisesse ver a Igreja compendiada ou espelhada cabalmente no coração de qualquer de seus Santos, Doutores ou Pontífices, erraria. Ela não se deixa conter em nenhuma das múltiplas manifestações de sua fecundidade sobrenatural. Seu espírito não está só no recolhimento dos anacoretas, na sabedoria dos Doutores, na paciência dos mártires, na pureza das virgens, na intrepidez dos cruzados, no ardor dos missionários, ou na suavidade dos que se dedicam aos enfermos. Ele é tudo isto ao mesmo tempo. É só com estas e outras justaposições que se pode ter noção da admirável perfeição da Religião Católica.

Tempo houve em que, a par da sociedade espiritual que é a Igreja de Deus, havia uma sociedade temporal de Príncipes e povos cristãos – conseqüência política lógica e admirável da realidade sobrenatural que é o Corpo Místico de Cristo – à qual se chamou Cristandade.

Dessa vasta e gloriosa família de nações marcadas na fronte pela Cruz do Salvador, também não se pode ter uma visão completa considerando apenas um dos povos que a integraram. Das margens risonhas do Tejo até os últimos confins da grande planície polonesa, da bela Nápoles inundada de luz até as províncias setentrionais da gélida Escandinávia ou da nobre e brumosa Escócia, se estendiam nações profundamente diversas entre si, ufanas dessas diversidades, mas ao mesmo tempo fortemente imbuídas da superior unidade com que todas se encontravam em Jesus Cristo. Uma unidade que era acima de tudo religiosa e mística, e decorria do convívio de todas elas no grêmio da Igreja. Mas uma unidade, também, cultural e psicológica, uma unidade humana – no sentido de uma humanidade batizada – que fazia com que a Europa não fosse inteiramente o que era, se lhe faltasse qualquer dos elementos que a integravam: o francês, cintilante de graça e de coragem, lúcido, gentil e vivo; o alemão, de corpo hercúleo e alma nobre, possante no pensar e no agir, terrível na guerra e cândido e afetivo no convívio da paz; o inglês, síntese original, atraente e algum tanto enigmática das qualidades do povo francês e do alemão, predestinado a povoar de Santos o Céu e estender sua glória pelos rincões mais longínquos da terra; o italiano, cujo gênio como que excessivamente fecundo se multiplicava em incontáveis variantes que faziam de cada pequeno Estado um sol de inteligência e cultura com características próprias; a gente ibérica, cavalheiresca e supremamente grandiosa, borbulhante de fé, calcando constantemente aos pés as riquezas da terra, com os olhos postos apenas no heroísmo, na morte e no reino de glória com Cristo. Enfim, poderíamos multiplicar os exemplos. Mas estes bastam para que se compreenda que a Cristandade, semelhante em tudo à Igreja, sua Mãe, tinha uma glória que lhe vinha toda “ab intus” (Sl. 44, 14), isto é, do espírito nacional dos povos que a compunham, esplendidamente iluminado pela fé. E que ela se adornava com uma cultura e uma civilização que eram como um magnífico “manto de cores variegadas” (Sl. 44, 10).


Portugal mostrou ao mundo assombrado – quer nas guerras contra o mouro, quer na expansão ultramarina, quer ainda no florescimento literário e artístico dos seus séculos de apogeu – que sabia e podia vencer com extraordinário brilho nas lutas e nas fainas da vida terrena. Para isto lhe sobrou força, denodo, inteligência e realismo.

Mencionamos juntos Portugal e Espanha, nessa enumeração. Foi de propósito. Não se deve falar destas duas nações nos mesmos termos com que se fala de Alemanha e da França, por exemplo. Mas antes como se falaria da Alemanha e da Áustria, ou da Suécia e da Noruega. Os traços fundamentais de ambas são comuns. Diferenciam-nas pormenores numerosos, interessantes, fecundos, mas enfim pormenores.

Quais estes traços comuns? Vemo-los principalmente no idealismo. Ambos os povos mostraram ao mundo assombrado – quer nas guerras contra o mouro, quer na expansão marítima, quer na colonização de três continentes, quer ainda no florescimento literário e artístico de seus séculos de apogeu – que sabem e podem vencer com extraordinário brilho nas lutas e nas fainas da vida terrena. Para isto lhes sobra força, denodo, inteligência e realismo. Insistimos no realismo, porque esta foi uma qualidade que com freqüência se lhes quis negar. Sustentar contra os mouros uma guerra vitoriosa de oito séculos, não é coisa que se consiga quando se tem a alma sonhadora e pusilânime de um idealista oco. Pois o tempo, as adversidades, o cansaço desgastam todos os sonhos. As guerras não se ganham olhando para as nuvens, nem combatendo apenas em campo raso, mas também fazendo emboscadas e descobrindo as do adversário, e mantendo no tabuleiro incerto da política uma ação contínua, muitas vezes tão importante quanto a do momento da batalha. Ora, tudo isto supõe um raro senso da realidade. O mesmo se poderia dizer da epopéia das navegações, das lutas ásperas e terríveis da colonização, e das dificuldades extenuantes, e tantas vezes prosaicas, inseparáveis de toda produção intelectual. Mas a despeito de tudo isto, a gente ibérica tem um indisfarçável desprezo pelo que é terreno. Ou, em termos mais exatos, tem um senso admirável da autenticidade e da preeminência de tudo quanto é extraterreno, espiritual, imortal.

Disto, dá uma prova excelente a atitude de portugueses e espanhóis ante as riquezas que lhes passaram pelas mãos nos tempos de prosperidade. Com elas construíram vivendas esplêndidas, palácios sumptuosos, mas sobretudo igrejas e conventos. Com elas desenvolveram admiravelmente a arte e tudo quanto diz respeito ao decoro e à nobreza da vida. Mas ornaram mais magnificamente as imagens dos seus Santos do que a si próprios. Ao contrário do que tantas vezes tem acontecido a outras nações na história, a quem as riquezas amolecem e as glórias tornam fátuas, Portugal e Espanha não conheceram os excessos degradantes a que se entregam tão facilmente os ricos e os poderosos. E por isto, quando a glória do poder político e as larguezas os abandonaram, a atitude profunda desses povos em face do acontecimento, se teve um tanto de indolência, também exprimiu bem claro a convicção de que não foi para estas coisas que Deus fez o homem, nem consiste nelas a dignidade e a alegria da vida.

Falamos de indolência. Tocamos assim num ponto delicado. É a questão dos séculos de decadência. Em que medida essa decadência reflete um declínio na têmpera dos homens, de sua piedade, de seus costumes? Em que medida exprime, de outro lado, a extenuação de povos que se tinham excedido a si próprios na realização de obras que assombraram o universo, e depois recompunham suas forças num suave letargo, à espera de outras oportunidades para outros feitos? Em que medida, por fim, essa decadência foi das equipes dirigentes, e em que medida foi dos povos? Seria preciso todo um artigo para expor nossas impressões sobre o assunto. E, para começar, haveria a distinguir entre decadência e decadência, pois poucos vocábulos são mais traiçoeiros e cheios de conformes do que este. Muito resumidamente, podemos dizer que a passagem da monarquia orgânica medieval para o absolutismo foi, a nosso ver, um fenômeno de decadência do suco vital de todos os povos europeus, fenômeno este provocado em última análise por causas religiosas e morais profundíssimas. A França e a Inglaterra tiveram nesse período, como também a Prússia, equipes dirigentes de grande valor. De onde os Estados continuaram a se desenvolver. Espanha e Portugal, como também de algum modo a Áustria, não tiveram essas equipes, e o Estado nesses países começou a fenecer. Assim, em fins do século XVIII a desproporção entre as duas monarquias ibéricas e a Inglaterra e a Prússia já é flagrante. Entretanto, tratava-se de uma decadência de povos? Se decadência havia, era menor do que a de quase todo o resto da Europa. Pois não se pode dizer que está em decadência quem recebe Napoleão como ele foi recebido na Península apesar da pavorosa defecção de tantos elementos dirigentes.

Assim, no complexo de fatos espirituais, morais, sociais, políticos e econômicos que caracterizam os séculos ditos de decadência, se discerne um real declínio. Este declínio se exprime por sintomas excessivos em sua aparência, que facilmente nos levariam a subestimar as forças latentes, admiravelmente vivas, que ficaram dormindo nos corações ibéricos, despertadas apenas de quando em quando por algum sobressalto magnífico, e reservadas pela Providência para alguma nova missão histórica a cumprir.

Portugal não pôs nas riquezas todo o seu empenho e por isso o seu progresso foi menos rápido do que o de outras nações, nada tendo de inebriante, sensacional ou vertiginoso.

Em linhas muito rápidas, chegamos quase até nossos dias. Esse traço de elevação de espírito, de justa estima do que é realmente superior, e de rejeição de toda concepção exclusiva ou prevalentemente utilitária da vida, Portugal e Espanha o transmitiram às nações que plasmaram na América. Também nós progredimos, também nós organizamos decorosamente nossa existência. Mas como não pusemos nas riquezas todo o nosso coração, nosso progresso foi menos rápido do que o de outros povos e nada teve de inebriante, sensacional, vertiginoso. Somos decadentes? Ninguém o afirma. Somos atrasados? Todos o dizem. Mas este atraso – daqui a pouco o mostraremos – é para nós uma bênção, e nos abre de par em par as portas do futuro.

Essa justa hierarquia de valores, pela qual o espiritual se antepõe ao material, o eterno ao passageiro, o absoluto ao relativo, o celeste ao terrestre, conduz antes de tudo ao heroísmo. Em seguida, a um feitio de espírito em que a teologia é mais do que a filosofia, e esta por sua vez dirige todas as ciências. Este feitio mental gera um feitio de vida em que se procura mais a nobreza do que o luxo, os prazeres sóbrios do comércio dos espíritos e da vida de família, do que os regalos de um conforto escancaradamente físico. No modo de ver as vicissitudes da vida, há uma atração para considerar de frente a dor, a luta, a própria morte, como valores dos mais grandiosos que Deus nos tenha dado para fazer frutificar neste vale de lágrimas para a eternidade. Daí uma naturalidade ante o perigo, uma força na adversidade, uma serenidade no sofrimento, que desnorteia outros povos. Há por exemplo certo otimismo nórdico falso, que procura fechar os olhos à dor e à morte, fazendo silêncio sobre elas, e chega a pintar os cadáveres como se estivessem vivos, para dar até a sepultura a idéia de que a morte não veio… De uma tal trivialidade está longe, bem longe, qualquer coração ibérico ou ibero-americano.

Aí está a razão secreta da fundamental nobreza de alma e do heroísmo profundo da gente ibérica de aquém e além-Oceano. Mas que tonalidades especiais tomam esses predicados, em solo português?

Em linhas muito rápidas, chegamos quase até nossos dias. Esse traço de elevação de espírito, de justa estima do que é realmente superior, e de rejeição de toda concepção exclusiva ou prevalentemente utilitária da vida, Portugal e Espanha o transmitiram às nações que plasmaram na América. Também nós progredimos, também nós organizamos decorosamente nossa existência. Mas como não pusemos nas riquezas todo o nosso coração, nosso progresso foi menos rápido do que o de outros povos e nada teve de inebriante, sensacional, vertiginoso. Somos decadentes? Ninguém o afirma. Somos atrasados? Todos o dizem. Mas este atraso – daqui a pouco o mostraremos – é para nós uma bênção, e nos abre de par em par as portas do futuro.

Essa justa hierarquia de valores, pela qual o espiritual se antepõe ao material, o eterno ao passageiro, o absoluto ao relativo, o celeste ao terrestre, conduz antes de tudo ao heroísmo. Em seguida, a um feitio de espírito em que a teologia é mais do que a filosofia, e esta por sua vez dirige todas as ciências. Este feitio mental gera um feitio de vida em que se procura mais a nobreza do que o luxo, os prazeres sóbrios do comércio dos espíritos e da vida de família, do que os regalos de um conforto escancaradamente físico. No modo de ver as vicissitudes da vida, há uma atração para considerar de frente a dor, a luta, a própria morte, como valores dos mais grandiosos que Deus nos tenha dado para fazer frutificar neste vale de lágrimas para a eternidade. Daí uma naturalidade ante o perigo, uma força na adversidade, uma serenidade no sofrimento, que desnorteia outros povos. Há por exemplo certo otimismo nórdico falso, que procura fechar os olhos à dor e à morte, fazendo silêncio sobre elas, e chega a pintar os cadáveres como se estivessem vivos, para dar até a sepultura a idéia de que a morte não veio… De uma tal trivialidade está longe, bem longe, qualquer coração ibérico ou ibero-americano.

Aí está a razão secreta da fundamental nobreza de alma e do heroísmo profundo da gente ibérica de aquém e além-Oceano. Mas que tonalidades especiais tomam esses predicados, em solo português?


A história lusa parece um curso de águas profundo, impetuoso, mas sempre sereno, que vai em linha recta diante de si mesmo, destruindo os obstáculos, com uma força invencível, mas conservando uma placidez, uma doçura, uma nobre simplicidade…

A história espanhola se afigura um desses rios que correm cristalinos e borbulhantes, num leito acidentado, onde as águas se jogam por despenhadeiros e abismos trágicos, brilhando à luz do sol com toda a alvura das grandes cataratas. Pelo contrário, a história lusa parece um curso de águas profundo, impetuoso, mas sempre sereno, que vai em linha reta diante de si mesmo, destruindo os obstáculos, com uma força invencível, mas conservando uma placidez, uma doçura, uma nobre simplicidade, até mesmo quando em sua superfície se espelham os mais belos aspectos do céu e da terra. O espanhol está sempre heroicamente mobilizado para a luta. O português não dá esta impressão. Ele é risonho, singelo, meigo. O espanhol está sempre pronto para enfrentar a tragédia. Dir-se-ia que os lados sublimes da existência não impressionam o português, todo afeito à consideração das doçuras de sua vida de família, na suavidade de seus campos, no encanto de suas vilas, na formosura de suas cidades. Mas se um grande ideal solicita a dedicação da alma portuguesa, se uma grave ofensa lhe faz ferver o senso da dignidade, o luso se levanta como um herói. E luta com toda a rijeza indomável da fibra ibérica, enfrenta o perigo, calca aos pés o risco, e aceita a morte com uma sobranceria que a ninguém foi dado exceder.

Este habitual estado de alma do português, afetivo, sereno, despretensioso, se colore de uma ligeira tinta de melancolia. Uma melancolia muito suave, que tem todas as luzes da resignação cristã, mas uma melancolia que é a nosso ver, o cunho próprio de Portugal. É a melancolia que lhe vem de saber que na terra a alegria perfeita é impossível e estamos nas agruras do exílio. A melancolia de que lhe nasce a poesia, a compaixão e a bondade. A melancolia que dele faz algo de incomensuravelmente superior ao “play-boy” contemporâneo.

Melancolia lusa, doçura lusa, encanto luso… tanto faria dizer-se melancolia brasileira, doçura brasileira, encanto brasileiro. Pois são precisamente estes traços, herdados de nossos maiores portugueses, que constituem, com variantes importantes em nosso solo pátrio, os elementos típicos da alma brasileira.


Não é este o momento de falarmos do brasileiro, nem de o descrevermos com pormenores. Neste país, sobre o qual se despejaram, muitas vezes sem discernimento nem critério, as riquezas étnicas e culturais de correntes imigratórias provenientes do mundo inteiro, é entretanto preciso lembrar alto e bom som que a nota dominante, largamente dominante, foi, é e terá de ser sempre a tradição lusa.

Mais do que ninguém “Catolicismo” tem acentuado o papel da França na vida de alma das nações cristãs. Mais do que ninguém, temos elogiado nestas colunas as grandezas de outros povos. Não somos exclusivistas, e compreendemos bem que temos de conservar o espírito aberto para todas as boas influências culturais. Por isto mesmo, achamos que a contribuição do italiano, do espanhol, do alemão, do africano ou do asiático é susceptível de ser assimilada com vantagem na vida cultural brasileira. Mas essa assimilação tem de ser feita em base de lusitanidade. Pois um Brasil que renunciasse ao que tem de herança lusa deixaria de ser Brasil.


Em toda esta tragédia universal, o mundo ibérico, no qual Portugal e Brasil ocupam um lugar de importância inexcedida, conserva para o dia de amanhã riquezas imensas, de alma, de cultura, de bens materiais, que ainda estão intocados. Em uma palavra, nosso é o futuro.

Depois deste longo itinerário de pensamentos e de evocações históricas, chegamos aos tempos atuais. Abram-se as páginas dos jornais. Pouco se fala nelas do mundo ibero-americano. O centro da cena é ocupado por outros povos. Mas o que fazem? Preparam-se para a maior chacina da história. Passam pelas contorções das crises mais horripilantes. E para evitar a chacina e a crise, em cada um deles importantes partidos políticos nos acenam com uma socialização total da vida, que seria pior do que os estragos da bomba de hidrogênio.

Todo o edifício que se construir com base na cobiça dos prazeres e dos bens da terra tem de arruinar-se por esta forma. O senso do ideal, do espiritual, do celeste, apagou-se em tantos e tantos povos quase completamente! Sua torre de Babel, que se erguera orgulhosamente ao lado da velha mansão paterna do mundo ibérico, deita chamas por todas as janelas, estremece em todos os alicerces, e de dentro dela partem vozes de discórdia e gritos de dor. Não temos esta riqueza, mas também não temos esta maldição. Construímos menos, e por isto acumulamos menos erros nas áreas de cultura e de terra que nos pertencem. E, em toda esta tragédia universal, o mundo ibérico, no qual Portugal e Brasil ocupam um lugar de importância inexcedida, conserva para o dia de amanhã riquezas imensas, de alma, de cultura, de bens materiais, que ainda estão intocados. Em uma palavra, nosso é o futuro.


Não tem outro sentido o facto de a Mãe de Deus ter querido falar de Fátima ao mundo inteiro. A sua mensagem dirige-se a todos os homens. Mas é bem de ver que o seu objecto imediato é o povo português e os que a Portugal são mais próximos pelo sangue e pela história.

Depois do ouro e do incenso, a mirra.

Quer tudo isto dizer que não cometemos, também nós, graves pecados? Infelizmente, não podemos pretender que tenhamos conservado intacto nosso patrimônio espiritual, e que seja perfeito tudo quanto fizemos no campo material.

Muitas vezes, deslumbrados pelo crescimento da Babel moderna, abrimos nossas janelas para o seu lado, deixando que nossas almas se envenenassem pelas harmonias e pelos perfumes que de lá nos vinham. Adaptamos nossa velha mansão, em muitos e muitos pontos, segundo as modas de Babel. Vestimos os trajes de seus habitantes e nos nutrimos de suas iguarias. Os que entre nós eram os admiradores desta Babel, com demasiada freqüência empunharam o leme, e indolentemente os deixamos fazer. Há em nós mesmos todo um trabalho de restauração a cumprir.

Mas este trabalho, a Providência o deseja e o abençoará. Não tem outro sentido o fato de que a Mãe de Deus tenha querido falar de Fátima ao mundo inteiro. Sua mensagem se dirige a todos os homens. Mas é bem de ver que seu objeto imediato é o povo português, e os que a Portugal são mais próximos pelo sangue e pela história.

Nós, povos ibéricos e ibero-americanos, sofremos, em medida não pequena, do mal de toda a humanidade hodierna. É esta uma verdade que precisa ser proclamada inteiramente, e com toda a coragem. Não nos libertaremos deste mal, nem recuperaremos as virtudes ancestrais, sem um profundo revigoramento religioso. Com efeito, assim como nenhum homem se pode dizer virtuoso no sentido real da palavra sem a graça de Deus, nenhum povo se pode dizer verdadeiramente virtuoso nem verdadeiramente grande sem a graça. Não é nossa natureza a fonte de nossa grandeza moral, senão na medida em que a graça eleva e santifica nossa alma.

Em conseqüência, para que a missão histórica que nos aguarda seja realmente cumprida, é mister uma urgente e completa reação religiosa. A grandeza de Portugal, do Brasil, da Espanha e da América espanhola é uma grandeza cristã. E para que a alcancemos, é necessário que atendamos plenamente à mensagem de Fátima.


Formamos um vasto potencial de fé, cultura e riqueza, que tem por missão fazer sobreviver na terra o ideal de uma Civilização voltada para o Céu.

Encerrando este artigo, temos um pensamento afetuoso que de Portugal se estende para todas as suas províncias da Ásia e da África, que vivem da mesma tradição, para a mesma missão. Possuem todas elas, em grau maior ou menor, condicionadas por influências locais diversas, as características do mundo luso. Essas características vivem nada menos que em sessenta milhões de brasileiros [em 1957] e em vinte milhões de portugueses da metrópole, da África e da Ásia [igualmente em 1957]. Imponente total em que o contributo dos mais variados povos e das mais diversas culturas não rompe uma homogeneidade que o tempo parece acentuar e consolidar a cada instante.

Como se vê, formamos um vasto potencial de fé, cultura e riqueza, que tem por missão fazer sobreviver na terra o ideal de uma civilização voltada para o Céu.

A consciência deste fato, a esperança de que neste mundo em transformação esta comunidade brilhe em formas novas, eis o que a visita dos dois Presidentes veio revigorar, em meio às manifestações de júbilo dos povos irmãos.

In “Catolicismo” Nº 80 – Agosto de 1957

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